A adolescência e os seus desafios
A adolescência é um tempo de transição, de mudança. E, como tal, de crise.
Esquecemos muitas vezes a dupla valência que esta palavra, na sua etimologia, veicula. Tende do conceito a dominar a noção de perigo, em detrimento da noção de oportunidade, igualmente nele intrincada.
A adolescência é um período de marcado potencial, de grande criatividade, em que tudo se pode ganhar: com a possibilidade de um salto evolutivo de qualidade e fortalecimento da estrutura psíquica, ultrapassando-se dificuldades do desenvolvimento infantil até então por superar; mas também em que tudo se pode perder: comportando um risco de desorganização e perda das referências, já fragilizadas, e de sedimentação psicopatológica.
Espera-se, desta fase de vida, a transição do tempo infantil para o tempo adulto, o abdicar da dependência infantil e a conquista de uma independência progressiva, o desinvestimento dos interesses infantis e o abraçar de projectos adultos. O sujeito enceta uma procura de si mesmo, de quem é – olhando para dentro e sentindo-se profundamente – e recruta modelos de identificação diferentes dos infantis, procurando fora da esfera familiar novas figuras de referência, alinhadas com esta intuição e desejo de quem se imagina vir a ser.
No possível desfasamento entre o abandono do antigo e a conquista do novo, a perda e, eventualmente, a depressão podem dominar o fundo psíquico.
A celeridade e intensidade das mudanças, não só psíquicas, como corporais e pulsionais, podem também pôr em causa a sensação de continuar a ser do Adolescente. A tensão entre a transformação, e disrupção inerente, e a continuidade está fortemente acesa na adolescência.
Os desafios para a família
A adolescência representa também uma disrupção da dinâmica familiar, impondo mudanças nas relações entre os seus membros, desafiando a sua capacidade de adaptação, o seu equilíbrio. É muitas vezes, também, um tempo de crise para a família, novamente com a dupla valência de oportunidade e perigo.
Os pais são solicitados para um novo papel e também eles vivenciam perdas: do lugar e papel que ocupavam para o filho/a – antes muito deles dependente e fervoroso admirador – vendo-se e sentindo-se agora interpelados e criticados quando não mesmo rejeitados/abandonados.
Impõe-se a reconstrução e reconfiguração do laço e das modalidades de relação entre pais e filhos, encontrar os novos ganhos que daí podem advir.
Os pais são também confrontados consigo próprios, impondo-se um balanço dos seus projectos de vida, da qualidade da relação de casal, da vida profissional; processo do qual podem naturalmente advir ganhos, ainda que muitas vezes não sem alguma dor. Nomeadamente pela confrontação com o avançar no ciclo de vida, confronto que ocorre com particular acentuação quando a emancipação dos filhos coincide no tempo com a perda ou degradação marcada do estado de saúde dos avós, pais dos pais.
A psicologia na adolescência
Num tempo em que tudo pode ser ganho e em que tudo pode ser perdido, a psicologia tem o papel de fazer a balança pesar para a primeira hipótese, prevenindo a segunda e revertendo-a quando em curso.
A psicologia tem um papel fundamental na identificação de situações de risco, podendo e devendo intervir de modo a facilitar um processo de crescimento salutar, com impacto imediato e que tende a persistir no futuro. E pode fazê-lo em intervenções com o adolescente, ou com a família, promovendo a saúde e adaptação do sistema familiar.
Assim como tem um papel na intervenção em processos patológicos, ajudando a desfazer os nós em que o adolescente e família se vêem enredados, restaurando e desenvolvendo recursos psíquicos e promovendo a adaptação do jovem adolescente, favorecendo uma vida adulta independente e autónoma.
Avaliação e projecto terapêutico
Quando a consulta se destina a um adolescente, o processo tende a começar com uma sessão inicial que conta com a participação dos pais, na qual estes têm a oportunidade de expôr as suas preocupações e esclarecer eventuais questões, e durante a qual o clínico aproveita para conhecer a família e respectiva dinâmica.
Segue-se, habitualmente, um processo de avaliação psicológica, que se tende a prolongar por três sessões, durante as quais o clínico aprofunda o conhecimento sobre o adolescente através da observação e entrevista, e aplica um conjunto de provas psicológicas para esclarecer questões em apreço e a orientar, a ser caso disso, uma orientação terapêutica.
Por fim, tem lugar uma sessão de devolução dos resultados da avaliação. Num primeiro momento, esta é discutida com o adolescente e num segundo com os pais e adolescente, tempo em eventualmente se procede ao mapear em conjunto de um projecto terapêutico que permita ir ao encontro das necessidades identificadas.